Lá vai ela descendo a ladeira, tentando se equilibrar nos pequenos palanques que colocou nos pés , pois seu desejo hoje é o mesmo de quem sobe em palanques. Hoje ela quer ser vista.
Percebeu que a menina que chora não tem nada e ficou com raiva daqueles que falaram: "Quem não chora não mama". Além de raiva agora ela tinha certeza que do leite que ela quer beber, para tê-lo não basta derramar lágrimas precisa-se de algo mais. Foi por isso que hoje tenta descer a ladeira do jeito mais elegante possível. Quer que todos naquela pequena festa lá no fim do morro, melhor dizendo, todos os homens interesantes naquela festa do fim do morro, olhem pra ela e a desejem. Além do salto coloca um vestido colado mostrando até as curvas que não conhecia.
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Quando se arrumava pensava em colocar algo diferente pensava em qualidade, queria somente o homem que gostaria dela se usasse suas antigas roupas, mas percebeu que antes nunca tinha dado valor a quantidade. Hoje queria experimentar altos números, valores nunca desejados. Antes nem pensara em números, pedia a sorte de um alguém, de um prazer ou melhor ainda sonhara com o amor repentino, devastador e eterno. Ela percebeu o quanto foi medíocre em seus pensamentos, podia ter pelo menos se deixado querer mais, assim como quer hoje. Então decidiu que suas velhas roupas hoje devem ser esquecidas e que seu novo vestido preto com tons vermelhos deve ser colocado, colado ao corpo denotando o desejo que está sentindo.
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Ao chegar na festa percebe que seus desejos são atendidos todos a olham, a maioria a desejam.
Mas surge um vento, leve brisa, que trás com ele o cheiro do local. O cheiro toma seu cabelo longo, possui todos os seus sentidos, seu olfato percebe algo estranho. De repente algo a incomodava junto com o cheiro lhe vem lembranças, da moça doce que era. Ou ainda é !? Sua visão agora não lhe faz mais feliz. Ela percebe que todos ali a olham, não como olhariam uma mulher, mas sim como lobos selvagens ao ver uma presa. Nesse instante o brilho dos seus olhos que antes era de ousadia na caça agora é de animal encurralado, um brilho molhado de mais quase uma lágrima, de medo.
Sai da festa. Sobe novamente o morro todo. A sua elegância se vai e agora quem olha para a ladeira vê uma moça perdida, tropeçando em todos aqueles infinitos paralelepípedos, cheios de musgo que quando ela caiu pela primeira vez lhe sujaram o vestido na altura dos joelhos.
Enfim paz novamente, chegou em casa . Tem raiva de si por tudo; pelo o que fez, pelo o que podia ter feito, e pelo o que não fez. A confusão de seus pensamentos a irritava bastante, mas ela percebia que nada era tão confuso, pois toda aquela confusão vinha dela mesma. Ela já sabia que meninas doces não mudam da noite pro dia, mas ela quis apostar, fez uma aposta alta, na verdade nem era tão alta assim, existiam poucos riscos e mesmo assim ela não correu nenhum. Agora toma banho tira aquela maquiagem pesada que nunca mais chamará de minha. Amanhã voltará a vida de mesmice que tinha antes, pois não teve coragem que correr atrás do leite que tanto queria.
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